TÂNIA TOKO: DAS PALAFITAS PARA O MUNDO

 

Esta baiana de 47 anos, nascida e criada nas palafitas dos Alagados não renega suas origens. Foi nesse local de extrema pobreza que conviveu com a mãe e mais cinco irmãos. Segundo ela, o filme "Cidade de Deus" de Fernando Meirelles, marcou muito sua vida. “ Eu me via retratada naquele contexto de miséria e violência. Muitos vizinhos e colegas meus, daquela época, já estão mortos”.

 

Apesar dos reveses, o único papel que não aceita da vida é a de vítima injustiçada , pelo contrário, as chances que lhes foram oferecidas, ela  não desperdiçou com choramingos. Se estabeleceu com competência, num meio restrito e competitivo.

 

Neusão da Rocha (da série de TV e do filme “Ó Pai Ó”) é seu personagem mais conhecido do cinema, mas já participou de outros longas como “Eu me Lembro”, do cineasta Edgar Navarro, “Jenipapo” de Monique Gardemberg  e, recentemente, do filme “Estranhos” de Paulo Alcântara.

 

Toko é essencialmente uma mulher dos palcos. Fez o curso livre na Escola de Teatro da Ufba e depois ingressou no Bando de Teatro Olodum, de onde trouxe muitas referências para compor seus tipos marcantes.

 

A atriz agora colhe os louros da fama pela sua notável participação em produtos globais. Por mais que o rótulo a incomode, por questões ideológicas, o fato é que Tânia Toko é uma celebridade. Por onde passa  as pessoas a aborda, pedem autógrafos e querem tirar uma foto ou um selfie com ela, inclusive eu ( risos).

 

 

 

Leia a seguir trechos de uma entrevista exclusiva que essa atriz "arretada de boa" concedeu  ao Janela Feminina .

 

Jf - De onde veio Tânia Toko?

 

TT - Sou oriunda de comunidade periférica de Salvador. Nasci nas palafitas dos Alagados, na Cidade Baixa ( Jardim Cruzeiro). Essa realidade sempre me inquietou, por conta das desiguldades sociais. Essas observações foram meus primeiros passos para me transformar em artista e querer falar sobre isso através da arte, tendo aí um meio para me expressar...

 

JFDe que forma  a vida lhe empurrou para o teatro?

 

TT -  A irmã de uma grande amiga minha (in memória)  já fazia Faculdade de Teatro na década de 80 e me disse assim: você é muito comunicativa... daria uma ótima atriz, por que você não faz um teste? Daí fiquei pensando nisso e fui tentar...Deu certo! Logo depois fiz  um ano de Preparação do Ator, em 88, na Escola de Teatro. Em 1989 fiz o Curso Livre da Escola de Teatro. Em 1990 entrei para o grupo “Bando de Teatro Olodum”, onde permaneci durante sete anos, com participação em 14 espetáculos, dentre eles “Ó Paí Ó” e Cabaré da Raça". Em 1998 saio do Bando e parto para o curso de Licenciatura em Artes Cênicas na UFBA. Formei-me em professora de teatro, além de atriz, diretora e produtora.

 

JF - Quantos anos você permaneceu no Bando...?

 

TT -  Sete anos:  de 1990 a 1998.

 

JF - Como surgiu a chance  de ir para a Rede Globo?

 

TT - Ná década de 1990 fiz  uma participação pequena em “Compadre de Ogum” e “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, tipo figuração com uma fala... (risos). Então logo vi que figuração jamais faria. Ou personagem ou nada, na minha cabeça já naquela época, eu achava que fazer figuração me distanciaria do objetivo. A partir daí comecei as experiências com o cinema. Voltei ao Bando como convidada para fazer “Ó Paí Ó”. Depois de dez anos sem trabalhar com eles. Daí a Rede Globo fez o convite para o filme se transformar em série. O Caminho foi esse... Minha ida para a Globo aconteceu realmente com “Ó Paí Ó”, mas a busca já rolava há vinte anos pelo vídeo. A globo saiu na frente...

 

JF -  Quantos trabalhos  você fez  na Globo?

 

TT  - Seis. “Compadre de Ogum” (1994), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1999), “Ó Paí Ó” (2008-09), “Fina Estampa”(2012-13), “Malhação”(2013-14) e “Em Família”(2014-15).

 

JF -  Como foi atuar no filme “Estranhos” de Paulo Alcântara?

 

TT -  Maravilha! Eu curto todos os personagens e trabalhos que faço. Entrego-me de corpo e alma para aquele personagem, se um diretor ou autor confiou no meu trabalho para desenvolver aquele personagem ou aquela ideia eu tenho que fazer jus a isso, não sei pensar e agir de outra forma, respeito autores e diretores, e isso dá muito certo. Em relação a “Estranhos” tenho um carinho enorme e especial. Fizemos com a cara e a coragem. Cinema na Bahia não é fácil de fazer, por isso esse sentimento de felicidade, de fazer parte desse projeto, da luta, da tentativa, e fazendo ARTE.... e das melhores...

 

JF -  Quais são suas referências  no teatro?

 

TT -  No teatro sem dúvida foi o Bando, já frequentava o teatro, mas quando vi o Bando quis entrar e falar das mesmas coisas...muito bom...

 

JF - Qual foi seu personagem mais marcante?

 

TT - Neusão, sem dúvida!

 

JF -  Você é contratada da Globo? Qual sua próxima escalação?

 

TT - Quase nenhum ator, hoje em dia, é contratado da Globo. Somos terceirizados, trabalhamos por obra, ou seja, essa liberdade não deixa de ser importante, pois nem sempre tem trabalho para o ator naquela determinada emissora, o que não impede o mesmo de trabalhar em outras emissoras, com outros produtos. Temos várias possibilidades  em canais fechado, no teatro, no cinema, eventos e publicidade, por exemplo.  Geralmente uma escalação pode ser feita hoje, e você tem que ir amanhã, não dá para prevê isso...

 

JF -  Já sofreu algum tipo de preconceito?

 

TT - Alguns...Só que venho de uma família muito feliz, onde o lema era e continua sendo: trabalho, sorrissos e piadas. Sobre o tema racismo nunca foi pauta nos nossos encontros familiares, pois essas questões resolvíamos logo lá, onde rolou... (gargalhadas). Esses assuntos tratávamos como coisa que não deveria tirar o nosso humor, o nosso sono e o amor que carregávamos no coração. Sou assim, até hoje, se eu estiver em algum lugar e rolar um tratamento diferenciado vou questionar, vou querer entender. Porém de uma forma suave. Calar, nunca!

 

JF – Quais são seus sonhos e projetos?

 

TT - Sonhos e Projetos são tão próximos né? Eu continuarei sonhando com a minha carreira, que eu possa continuar usando a minha arte para comunicar, alertar, confundir... Que Deus continue me abençoando com saúde para que eu possa desfrutar um pouco mais dessa maravilha que é viver... Eu amo a vida!  E tudo de bom que ela possa nos oferecer, tento realizar meus sonhos, e tenho conseguido, acho que a totalidade não existe, perdemos tempo quando buscamos isso. vivo cada momento e vou planejando dessa perspectiva real. Perdemos e ganhamos coisas... temos momentos de extrema tristea e também de felicidade, vamos viver um dia por vez...

 

 

 

 

 

 

 

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