AS DORES E DELÍCIAS DA RELAÇÃO AMOROSA

 

"Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer..." (Camões).

 

Esses versos de Camões exprimem brilhantemente o efeito colateral do amor e seus desdobramentos num relacionamento afetivo. A sorte de um amor tranquilo que almejava Cazuza é quase utópica, visto que o conflito está imbricado na relação a dois. "Cada um chega  com valores e expectativas diferentes, se frustram quando elas não se concretizam, justamente porque são idealizadas". Pontua a psicóloga Ana Martha Falzoni.
 

Freud entra nessa história para explicar,  à luz da psicanálise, que nossos problemas afetivos e a escolha do parceiro estão ligados a nossa infância. A teoria do Complexo de Édipo, grosso modo, define a representação inconsciente pela qual se exprime o desejo sexual da criança pelo genitor do sexo oposto e sua hostilidade para com o genitor do mesmo sexo.
 

Em síntese, o que Freud queria dizer é que buscamos no outro aspectos de identificação com nossos pais, figuras parentais que tivemos o primeiro contato. Se a relação com os genitores não foi satisfatória, o indivíduo, inconscientemente, se relaciona com suas réplicas. São questões que não foram bem elaboradas na infância. Esta carga de insatisfação é arrastada até a vida adulta, impondo ao outro a tarefa de preencher suas carências afetivas.

 

Não cabe ao outro preencher nossas lacunas sentimentais, a transferência dessa responsabilidade  para o parceiro, muitas vezes, é o ponto fulcral dos conflitos dentro de um relacionamento.

 

A psicóloga Ana Martha Falzoni vai mais fundo nesta questão: "Costumamos idealizar os modelos de relações que conhecemos, na maioria das vezes, de forma inconsciente. É aí que ocorre um desencontro: como conciliar o meu desejo com o desejo do outro, para ficarmos juntos? A paixão inicial faz com que vejamos o parceiro de maneira idealizada, e quando ela acaba, é possível vê-lo como ele é".

 

A paixão é o desejo em alta voltagem, ela  ofusca nossa percepção diante do outro, só enxergamos o que queremos ver, aquilo que idealizamos e esperamos da relação. Este sentimento avassalador e inquietante sabota nossa razão  de forma deliciosamente viciante e perigosa...

 

"Ao fim da paixão, a relação não se sustenta e é preciso viver uma nova. É como se fosse necessário receber de volta, na mesma proporção, o amor que deixei de ter por mim mesmo, para investir no outro. É um sentimento constante de incompletude. A tranquilidade do amor está em aceitar o outro com seus defeitos e qualidades e saber que o amor narcísico jamais será revivido", psicanalisa Ana Martha.

 

No entanto, o conflito é inerente às relações humanas, principalmente no relacionamento romântico. Sendo, dialeticamente, necessário à construção do ser, enquanto indivíduo. A célebre frase de Sartre "O inferno são os outros" está imbuída do princípio da alteridade: é pelo olhar do outro que nos reconhecemos e tomamos consciência de quem realmente somos.

 

A tensão e o conflito quando bem manejados, podem ser o tempero que vai dar mais colorido e sabor à relação. Porque navegar sempre em águas tranquilas, não proporciona a emoção das grandes descobertas e o relacionamento pode encalhar no marasmo imposto pela rotina. O casal precisa se reinventar para sorver em pequenos goles a dor e a delícia dessa viagem a dois.

 

O amor de novela é ficção, na vida real os protagonistas são de carne, osso e sentimento. Precisamos aceitar o outro como ele realmente é. Todo mundo tem pontos fortes e áreas sensíveis. O respeito e o diálogo fortalecem a intimidade e melhora o sexo, consequentemente, solidifica o relacionamento fechando as brechas para a existência de um terceiro vértice na relação, pois não é qualquer um que tem estrutura emocional para viver um triângulo amoroso.

Quanto a expectativa de um amor tranquilo, o escritor Xico Sá arremata: "Como se houvesse a sorte de um amor tranquilo. Se for amor, sempre rola um desassossego".

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